4 animes com segredos cristãos

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Você é um devoto católico procurando uma desculpa para relaxar e curtir alguns desenhos importados da Terra do Sol Nascente? Você veio ao lugar certo!

Quem já passou pelo agradável grupo de Facebook Catholic Anime sabe: existem alguns fãs católicos de animação japonesa vasculhando a web incansavelmente e criando memes com seus personagens favoritos. Entretanto, esses fãs não sabem que, de fato, há séries de animes que conscientemente fazem uso de temas e do simbolismo católico — alguns abertamente, outros de forma mais sutil.

(Nota: estou dizendo que temas católicos são mostrados abertamente nos animes a seguir. Não quero dizer que esses animes são apropriados para todas as idades. Se você procura algo mais família neste gênero, eu recomendo fortemente os filmes do Studio Ghibli).

Sem mais delongas, vamos explorar!

4) Samurai Champloo

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Esta série semi-histórica conta as aventuras de três companheiros – Jin, Mugen e Fuu – viajando pelo Japão da Era Tokugawa em busca do misterioso Samurai Sunflower. No caminho, eles encontram obstáculos que incluem oficiais corruptos do governo, holandeses admiradores de geishas, e até uma família de piratas vingadores. A série apresenta uma trilha sonora divertida e anacrônica composta por trechos de hip-hop no meio do cenário histórico do fim do período Edo (meados do século 19). Também inclui sequências de ação com “artes marciais” inspiradas na dança hip-hop.

Mas o que isso tem a ver com catolicismo? Bem, neste caso, a relação não está tanto nos temas da série, mas em um capítulo pouco conhecido da história japonesa.

O final da série — um episódio dividido em três partes chamado Evanescent Encounter — mostra uma sub-trama acerca de um grupo perseguido de cristãos japoneses, entre eles, uma pessoa significativa para um dos principais personagens. O diálogo sobre essa perseguição não diz muita coisa; porém, alguns flashbacks nos dão, de relance, cenas do martírio desse grupo. Foi o que aconteceu de verdade com os mártires perseguidos pelos seus inimigos Tokugawa. Um episódio anterior também aborda a realidade dos cristãos perseguidos, e até inclui uma cena historicamente correta na qual aldeões japoneses são colocados em fila e obrigados, sob a espada, a pisotearem uma imagem do Cristo para provarem sua lealdade ao Japão.

Os mártires japoneses são um grupo “esquecido” na história do cristianismo. É uma satisfação encontrá-los representados em uma série de renome produzida no mesmo país em que foram sujeitos a essa opressão tão brutal.

3) Cowboy Bebop

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Muito famosa como uma das melhores séries de anime de todos os tempos, Cowboy Bebop é situada em um futuro distante no qual a humanidade colonizou vastas regiões do espaço. É a história de uma heterogênea tripulação de caçadores de recompensa: Spike Piegel, o protagonista e um ex-membro da máfia; Jet, parceiro de Spike e ex-policial; Faye, a caçadora de recompensas com um passado misterioso (sério?!); e Edward, uma jovem hacker. Eles vivem como família a bordo da nave Bebop, trabalhando juntos para caçar os criminosos mais perigosos do Sistema Solar… por dinheiro, claro.

O principal antagonista da série tem um nome apropriado: Vicious, uma figura do passado de Spike, hábil com a espada e puramente diabólico. Com Vicious, temas abertamente católicos sobre o bem e o mal tornam-se o foco derradeiro da série. Quando encontramos Vicious no episódio A canção dos Anjos Caídos (entendeu?), ouvimos a música Ave Maria tocando ao fundo. O primeiro confronto entre Spike e Vicious acontece numa igreja abandonada, porém, ornamentada. Muitas falas de Vicious evocam temas teológicos (“Quando os anjos são expulsos do Paraíso, eles se tornam demônios”) e Vicious é descrito repetidamente como uma “serpente” (caso o simbolismo ainda não tenha ficado claro o bastante).

O confronto entre Spike e Vicious, inserido no contexto de uma batalha eterna entre o virtuoso e o diabólico e dirigido com maestria por Shinichiro Watanabe (que depois dirigiria Samurai Champloo) num estilo que lembra John Woo, faz de Cowboy Bebop uma das séries mais populares da lista, e provavelmente a melhor delas.

2) Death Note

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Como o título sugere, Death Note (“nota de morte”) é de longe a série mais sinistra da lista, e também um dos animes mais populares dos últimos anos. Conta a história de um jovem brilhante, porém desiludido, chamado Light Yagami, que encontra um caderno com várias instruções esquisitas. A primeira delas diz simplesmente: “o ser humano cujo nome está escrito neste caderno morrerá”. Com a ajuda de um Shinigami (ou um “deus da morte”) chamado Ryuk, Light assume a missão megalomaníaca de reconstruir o mundo à sua própria imagem, com o objetivo final de se transformar em Deus — e lançando o julgamento contra qualquer um que tentasse impedi-lo.

Não temos certeza da intenção do escritor da série, mas Light Yagami é uma perfeita metáfora humana para o Diabo. Lembre-se, por exemplo, que “Lúcifer” significa “portador da luz” e que o pecado de Satanás foi o mesmo de Light: desejar ser deus. O caminho gradual de Light enquanto ele persegue seu objetivo nada santo é uma ilustração vívida do entendimento católico sobre o mal. Há várias referências católicas sutis em forma de simbolismo e música. Logo no começo do primeiro episódio, ouvimos um Kyrie tradicional, que depois reaparece de formas diferentes ao longo da série (geralmente acompanhando os elementos sobrenaturais da trama). Cruzes, crucifixos e uma igreja em chamas são apenas algumas das dicas visuais da mensagem central da série.

Os spoilers de Death Note devem ser evitados a todo custo, mas é suficiente dizer que a história como um todo pode ser interpretada como um alerta veemente: “Não julgueis para não serdes julgados”.

1) Trinity Blood

Anime-TrinityBloodvia wall.alphacoders.com 

Anos atrás, havia nos EUA uma série de TV chamada Father Dowling Mysteries, na qual um padre católico investigava crimes em parceria com uma freira. Então, adicione vampiros e animação japonesa e você tem Trinity Blood.

Trinity Blood é a melhor série da lista? Não, mas é de longe a mais católica. O personagem principal é Abel Nightroad, padre católico e “crusnik”, um vampiro que se alimenta de outros vampiros. Sua parceira é um jovem freira chamada Esther Blanchet, que o acompanha em missões de paz que [obviamente] acabam em batalhas carregadas de ação. Praticamente todo personagem masculino relevante também é padre, e muitas das personagens femininas são freiras (ou, o que é esquisito, “uma Cardeal” — mas deixa quieto). Até o Papa (o Papa!) é um personagem recorrente com sua própria sub-trama!

Trinity Blood é intencionalmente respeitosa com a Igreja Católica, retratando-a como mantenedora da paz e uma força do bem no mundo (embora tenham me informado que, enquanto escrevo, o Papa Francisco ainda não inaugurou a divisão antivampiro da Igreja). O vampirismo de Padre Nightroad é uma metáfora eficiente para a natureza decaída do homem. Ele luta constantemente contra essa condição e, às vezes, sucumbe aos seus impulsos perversos, porém, sempre vem a possibilidade de arrependimento e de renovar o compromisso em combater as forças da escuridão.

* Nota adicional: seja quem fez a animação da série, é maníaco por arte e arquitetura europeia clássica (isto é: católica).

Se a animação japonesa fosse mais popular, os ateístas provavelmente iriam à justiça tirar Trinity Blood do Netflix (ou ao menos colocariam um outdoor irritante na rua reclamando).

Conclusão

Ok, animes não são para todo mundo, e se você não é fã, esta lista não vai te converter (com trocadilho).

Porém, é no mínimo gratificante saber que mesmo no Japão, onde o número de católicos batizados é baixíssimo, uma pequena porção de mensagens católicas ainda pode ser ouvida – mesmo que por meio de canais imperfeitos.

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Michael Saltis
Michael Saltis vive, trabalha, e, ocasionalmente, encontra tempo para escrever em Akron, Ohio.