A Igreja Católica não indica em quem o católico deve votar. Mas isso não significa que, diante de uma eleição, todas as escolhas sejam moralmente equivalentes.
A pergunta não é apenas “qual candidato escolher?”, mas quais princípios estão em jogo, quais bens precisam ser protegidos e quais consequências concretas podem resultar da escolha?
A Doutrina Social não é um programa partidário
A Doutrina Social da Igreja não apresenta um modelo fechado de governo, economia ou partido.
Ela oferece princípios para avaliar a realidade política e social, como a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a participação, a justiça e a paz.
Por isso, católicos podem ter opiniões diferentes sobre questões prudenciais. A Igreja não transforma preferência partidária em doutrina.
Mas existem questões que não podem ser tratadas apenas como preferência política.
A Santa Sé recorda a importância da proteção da vida humana desde a concepção até a morte natural, da família fundada sobre o matrimônio, do direito dos pais de educar os filhos e da liberdade religiosa.
O Catecismo ensina, por exemplo, que o aborto é gravemente contrário à lei moral e que a eutanásia também é moralmente inadmissível.
Nem todo risco político é igualmente concreto
O católico precisa distinguir um mal concreto de uma possibilidade apenas hipotética.
Imagine dois candidatos: um defende a ampliação do aborto e outro defende a pena de morte. As duas posições podem ser avaliadas moralmente à luz do ensinamento da Igreja. Mas é preciso perguntar: qual delas está realmente em discussão? Qual pode ser votada? O cargo em disputa tem poder para produzir esse efeito?
Uma questão pode estar em debate e depender diretamente da atuação daquele candidato. Outra pode estar distante da competência do cargo ou depender de uma sequência de acontecimentos improváveis.
O discernimento católico deve considerar a realidade concreta da eleição, e não tratar rumores ou hipóteses como se fossem acontecimentos certos.
O candidato não vem sozinho
Especialmente nas eleições legislativas, o eleitor não escolhe apenas uma pessoa. Escolhe também uma legenda, um programa partidário e um grupo político dentro do qual aquele parlamentar irá atuar.
Por isso, não basta conhecer o discurso do candidato.
É preciso olhar para o partido, seu programa, suas diretrizes, seus aliados e seu histórico. Também vale verificar como o candidato votou anteriormente e se existe coerência entre o que apresenta na campanha e o que faz no mandato.
A legislação partidária brasileira estabelece uma relação entre a atuação parlamentar e os princípios e diretrizes previstos no programa e no estatuto do partido.
A filiação partidária, portanto, faz parte do contexto real da candidatura.
E quando todas as opções têm problemas?
É aqui que aparece uma das questões mais delicadas do discernimento político: o chamado mal menor.
Escolher uma alternativa menos prejudicial não transforma o mal em bem.
Um católico não pode justificar diretamente uma ação moralmente má simplesmente porque acredita que ela produzirá algum benefício político.
Mas existe diferença entre querer diretamente um mal e tolerar um mal que não se consegue eliminar naquele momento para evitar consequências ainda mais graves.
São João Paulo II tratou dessa questão na Evangelium Vitae ao considerar a atuação de parlamentares diante de uma legislação que permitisse o aborto. Quando não fosse possível revogá-la completamente, poderia ser moralmente legítimo apoiar uma proposta que limitasse seus efeitos negativos, desde que permanecesse clara e conhecida a oposição pessoal ao aborto.
O discernimento, portanto, não exige encontrar um candidato perfeito. Exige avaliar o que está realmente em jogo, o que é possível alcançar e quais bens podem ser protegidos ou males evitados.
Também é preciso olhar para o conjunto
Vida, família, liberdade religiosa, educação, justiça, segurança, combate à corrupção e outros aspectos do bem comum fazem parte da responsabilidade política.
É preciso considerar a candidatura como um todo. Isso não significa colocar todos os temas no mesmo nível: a Doutrina Social exige uma correta hierarquia dos bens.
Como discernir antes de votar?
A Igreja não substitui a consciência do eleitor. Mas uma consciência verdadeiramente livre precisa ser formada pela verdade.
Antes de votar, vale perguntar:
1. O que esse candidato realmente defende?
2. Quais princípios e bens fundamentais estão em jogo?
3. Quais riscos são concretos e quais são apenas hipóteses?
4. Entre as opções reais, qual escolha posso fazer com uma consciência bem formada?
A responsabilidade continua depois da eleição
O dever do católico não termina quando o voto é depositado.
É preciso acompanhar os eleitos, cobrar promessas, questionar decisões e denunciar injustiças.
A Igreja não entrega ao católico uma lista de candidatos. Ela oferece princípios para formar a consciência e critérios para discernir diante da realidade.
Diante da urna, a pergunta não deveria ser apenas:
“De que lado está este candidato?”
Mas:
“O que ele realmente defende? O que é moralmente fundamental? O que pode acontecer de fato? E, entre as opções reais que tenho diante de mim, qual decisão posso tomar com uma consciência verdadeiramente formada?”
É nesse exercício de verdade, prudência e responsabilidade que o católico é chamado a participar da vida política.
