Padre Alexandre Pinheiro poderia ter seguido os passos do pai e do avô no Exército. Em vez disso, depois de duas reprovações na Academia Militar, uma temporada nos Estados Unidos e anos estudando Direito, descobriu que precisava fazer uma pergunta diferente: o que Deus queria para a sua vida?
Hoje, o sacerdote celebra Missa à beira-mar no Quiosque do Guido, na Praia do Recreio, no Rio de Janeiro. Surfista e ligado ao esporte desde jovem, é também doutor em Teologia pela PUC-Rio.

Mas o caminho até o sacerdócio passou por uma série de portas que se fecharam e outras que ele demorou a perceber.
O sonho de ser militar
Padre Alexandre cresceu em uma família de militares. Seu pai é general do Exército Brasileiro e seu avô também foi general.
Estudava no Colégio Militar, praticava natação, surfava e sonhava em se tornar oficial.
Tentou entrar para a Academia Militar das Agulhas Negras duas vezes.
Foi reprovado nas duas.
Depois da primeira reprovação, sua mãe, professora de português, contratou professores particulares para ajudá-lo nas matérias em que tinha dificuldade. Ele passou um ano se preparando para a nova tentativa.
Mas o resultado foi novamente negativo.
Enquanto seus colegas ingressavam na Academia, começou a questionar o próprio caminho.
“Eu pensava que era burro”, contou.
Naquele momento, seu pai estava nos Estados Unidos. O jovem decidiu acompanhá-lo.
“Eu não tinha paz”
Padre Alexandre passou dois anos nos Estados Unidos e estudou na Kansas State University, em Manhattan, no Kansas.
Por fora, tinha uma vida que parecia promissora.
Era jovem, estudava em uma universidade americana e tinha oportunidades diante de si.
Mas conta que não tinha paz.
“Eu não tinha paz.”
Ele não tinha problemas com vícios. Era atleta e dizia não gostar de fumar ou beber. Ainda assim, sentia um vazio interior.
Foi nesse período que sua família começou a se preocupar.
Sua tia Dulce lhe enviou um CD de Dom Cipriano Chagas, fundador da Comunidade Emanuel. A gravação trazia uma oração de cura interior chamada “Um Passeio com Jesus”.
A partir dali, começou a se abrir para a vida espiritual.
Quando voltou ao Brasil, passou a frequentar um grupo de oração conduzido pelo primo Pedro Siqueira. Em um dos encontros, recebeu o convite para começar a rezar o terço.
Segundo seu relato, a oração foi um ponto importante de sua aproximação com Deus.
Passou a participar mais ativamente da vida da Igreja, de grupos de oração e de retiros da Renovação Carismática.
Ainda assim, não pensava em ser padre.
O discernimento começou aos poucos
Padre Alexandre estudava Direito. Formou-se e chegou a imaginar uma vida profissional na área, com concurso, casamento e sucesso.
Foi então que começou a surgir uma possibilidade que ele não estava procurando.
O sacerdócio.
O chamado apareceu em diferentes momentos.
Durante um retiro na Canção Nova, ouviu um sacerdote falar sobre jovens chamados a entregar a própria vida a Deus. Sentiu que aquelas palavras tinham relação com ele.
Mas resistiu.
Ele contou que havia terminado um relacionamento e ainda pensava em voltar com a namorada. A ideia de ser padre não fazia parte dos seus planos.
Algum tempo depois, durante outro retiro, o fundador da Comunidade Mar à Dentro rezou por ele e fez uma pergunta direta:
“Já pensou em ser padre? O Senhor está te chamando.”
Dessa vez, começou a considerar seriamente a possibilidade.
O discernimento não aconteceu de uma vez. Foi sendo construído através da oração, dos encontros e das circunstâncias da própria vida.
Aos poucos, aquilo que antes parecia fracasso começou a ganhar outro significado.
A reprovação na Academia Militar não tinha encerrado sua história. Apenas havia mostrado que aquele caminho talvez não fosse o seu.
O pai também precisou fazer seu caminho
A descoberta da vocação trouxe outro desafio: a reação do pai.
Os dois fizeram juntos o Caminho de Santiago de Compostela, percorrendo cerca de 750 quilômetros entre a fronteira da França e a Galícia, na Espanha.
Durante a caminhada, Padre Alexandre contou que queria ser padre.
Seu pai não recebeu bem a ideia. Ele havia passado cerca de 30 anos afastado da confissão depois de uma experiência negativa com um sacerdote, após uma missão militar.
No final do Caminho de Santiago, o filho sugeriu que ele se confessasse para poder comungar.
O pai aceitou, mas colocou uma condição: queria se confessar com um padre de cabelos brancos.
Na Catedral de Santiago, encontraram justamente um sacerdote idoso. Depois da conversa, o pai de Padre Alexandre se confessou e voltou a comungar.
Com o tempo, também passou a apoiar a vocação do filho.
O padre que continua ligado ao mar
Hoje, a história de Padre Alexandre tem um cenário que dificilmente alguém imaginaria quando ele sonhava com a carreira militar.
O mar.
O sacerdote é surfista e atua no Quiosque do Guido, na Praia do Recreio dos Bandeirantes, espaço confiado à Comunidade Shalom para a evangelização.
O local mantém uma programação de Missas à beira-mar.
A relação de Padre Alexandre com o esporte vem de antes do sacerdócio. Na juventude, praticava natação e surfava. Também é faixa preta de jiu-jitsu e praticante de maratonas aquáticas, segundo as informações apresentadas sobre sua trajetória.
No quiosque, celebra Missas e encontra pessoas em um ambiente bem diferente do que muitos imaginariam como cenário de uma celebração.
A vocação, porém, não apagou a história que veio antes dela.
“Senhor, que eu veja”
Durante seu testemunho, Padre Alexandre partiu do Evangelho de Bartimeu para falar sobre o próprio caminho.
O cego se aproxima de Jesus e pede:
“Mestre, que eu veja.”
Para o sacerdote, essa oração também pode ser entendida como uma súplica pelo discernimento.
Por muito tempo, ele sabia o que queria.
Queria ser militar.
Depois, pensou em seguir o Direito.
Precisou, porém, aprender a fazer outra pergunta:
“O que Deus quer de mim?”
Foi nessa busca que começou a enxergar sua vocação.
O jovem que ficou frustrado ao ser reprovado duas vezes na carreira militar tornou-se sacerdote.
Sua história, como resumiu no testemunho, começou com um pedido:
“Senhor, que eu veja.”
Assista o testemunho na íntegra:
