Você provavelmente já ouviu falar no “advogado do diabo”. Mas sabia que a expressão está ligada ao processo de canonização da Igreja Católica?
Antes de declarar alguém santo, a Igreja investiga cuidadosamente sua vida, seus escritos, documentos, testemunhos e fama de santidade.
E, durante séculos, existiu uma figura encarregada justamente de levantar objeções e questionar os argumentos apresentados em favor de uma causa.
Era o Promotor da Fé, conhecido popularmente como “advogado do diabo”.
O nome pode parecer estranho. Mas sua função não era ser contrário à Igreja ou “defender o demônio”.
Seu papel era colocar a causa à prova.
Por que a Igreja precisava de alguém para questionar?
No procedimento tradicional, enquanto os responsáveis pela causa apresentavam os argumentos favoráveis à canonização, o Promotor da Fé examinava documentos e testemunhos e apresentava as dificuldades que precisavam ser respondidas.
A ideia era evitar que uma causa avançasse com provas frágeis ou sem que questões importantes fossem devidamente examinadas.
Entre os pontos analisados estavam as virtudes atribuídas ao candidato, a confiabilidade dos testemunhos e documentos, possíveis aspectos problemáticos de sua vida ou de seus escritos e, quando fosse o caso, os supostos milagres apresentados durante o processo.
Por isso, o “advogado do diabo” não existia para impedir que alguém fosse reconhecido como santo.
Sua função era ajudar a garantir que o processo fosse conduzido com rigor.
O “advogado do diabo” ainda existe?
Aqui está um detalhe que muita gente não sabe.
A Igreja não simplesmente aboliu o Promotor da Fé. O que mudou foi sua função.
Em 1983, São João Paulo II promulgou a Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister, que reformou profundamente o processo de canonização.
O antigo debate formal entre o Promotor da Fé e os defensores da causa foi abolido.
Mas o cargo de Promotor da Fé continuou existindo.
A legislação determina que o Dicastério para as Causas dos Santos tenha um Promotor da Fé, também chamado Prelado Teólogo.
Entre suas funções estão presidir o Congresso dos Teólogos, participar da avaliação teológica das causas e preparar o relatório desse trabalho.
Assim, a figura que ficou conhecida como “advogado do diabo” continua fazendo parte do processo, mas não exatamente da maneira como funcionava no passado.
E como alguém chega a ser reconhecido como santo?
É nesse longo caminho que aparecem quatro títulos conhecidos pelos católicos: servo de Deus, venerável, beato e santo.
Servo de Deus é o título utilizado para aquele cuja causa de beatificação e canonização foi oficialmente iniciada.
Venerável é aquele cuja prática de virtudes heroicas foi reconhecida pela Igreja.
Beato é aquele que foi beatificado e pode receber culto público nos limites determinados pela Igreja.
E santo é aquele que foi canonizado e cuja veneração é estendida à Igreja universal.
Cada etapa, portanto, representa um momento diferente do processo.
E o Brasil tem muitos desses nomes
O Brasil também possui homens e mulheres em diferentes etapas desse caminho.
Alguns já são santos reconhecidos pela Igreja, como São José de Anchieta e Santa Dulce dos Pobres. Outros são beatos, veneráveis ou servos de Deus, com suas causas em diferentes estágios.
Conhecer essas histórias também é conhecer um pouco de um Brasil de fé que muitas vezes permanece escondido.
Foi justamente com essa proposta que a Minha Biblioteca Católica reuniu mais de 30 dessas histórias no livro Santidade no Brasil.

A obra apresenta santos, beatos, veneráveis e servos de Deus ligados ao Brasil, organizando-os de acordo com os diferentes graus de reconhecimento da Igreja.
Além das histórias, o livro ajuda a entender o que significa cada título e como uma vida pode chegar a ser reconhecida pela Igreja como exemplo de santidade.
A edição acompanha ainda o guia de leitura “Sede Santos” e um brinde com 8 ícones devocionais de bolso, cada um com uma oração no verso.

No fim, a expressão “advogado do diabo” revela algo importante sobre a própria seriedade da canonização: antes de apresentar alguém como exemplo de santidade para os fiéis, a Igreja procura examinar cuidadosamente sua vida e as razões que sustentam esse reconhecimento.
