Às vésperas do segundo turno, os católicos brasileiros receberam duas palavras de bispos em dois dias. E muitos ficaram sem saber qual delas ouvir.

Na quarta-feira, o Conselho Permanente da CNBB publicou uma mensagem ao povo brasileiro convidando ao discernimento sobre a trajetória dos candidatos. No dia seguinte, um grupo de bispos divulgou uma carta com uma avaliação bem mais direcionada das candidaturas.

Diante dessa confusão, Dom Antonio Carlos Rossi Keller, bispo de Frederico Westphalen (RS), escreveu uma nota pastoral com um título que resume tudo: “A Doutrina Social não se cita pela metade”. Ele escreve em nome próprio e faz questão de dizer que não julga intenções.

O problema não é a Igreja falar de política

Dom Antonio não contesta o direito dos bispos de se pronunciarem sobre a vida pública.

“A questão não é o direito. É o modo, o momento e o uso que se faz da doutrina”, escreve.

A diferença entre os dois textos está justamente aí: “Um fala na gramática da consciência; o outro, na gramática da conclusão.” A carta não cita nomes, mas reúne posições sobre trabalho, política externa, armas e clima que permitem identificar a quem se dirige.

O próprio Magistério pede essa distinção. A Nota doutrinal sobre a participação dos católicos na vida política, da Congregação para a Doutrina da Fé (2002), reconhece no n. 3 a legítima pluralidade de opções políticas entre os fiéis. Assinatura de bispo não transforma toda interpretação em doutrina.

O silêncio que grita

Aqui está o coração da nota.

“A Doutrina Social da Igreja não é uma coleção de capítulos autônomos de onde se retiram os que convêm ao argumento do momento”, afirma Dom Antonio. É “um corpo orgânico, nascido de uma única fé e ordenado a um único princípio: a dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus, anterior ao Estado e superior a ele”. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja pede que os princípios sejam compreendidos em sua unidade (nn. 160–163).

A carta invoca essa doutrina para falar de trabalho, armas, meio ambiente e soberania. “É legítimo fazê-lo”, reconhece o bispo. O problema é o que ficou de fora: aquilo que o Magistério trata “como fundamento, e não como apêndice”.

Nada sobre a vida humana inocente desde a concepção, “o primeiro dos direitos, sem o qual todos os demais são retóricos”. Nada sobre a ideologia de gênero como projeto pedagógico, o casamento e a família ou o direito dos pais à educação dos filhos. Também ficaram de fora a propriedade privada, a subsidiariedade, a liberdade econômica e a liberdade religiosa.

“São exatamente esses os pontos que a Igreja chama de não negociáveis na avaliação de um programa político”, escreve. A expressão remonta a Bento XVI (Sacramentum Caritatis, n. 83).

E sem os fundamentos, o resto não se sustenta. Defender o trabalhador, a criação e os pobres pressupõe defender a pessoa humana desde o primeiro instante.

“Citada pela metade, ela deixa de ser doutrina e passa a ser instrumento.”

Se o critério é moral, ele vale para todos

Dom Antonio pede o mesmo rigor para qualquer lado. Chamar uma candidatura de ameaça à democracia exige prova, não interpretação: “O ônus da prova pertence a quem acusa — e, em documento episcopal, esse ônus é mais pesado.”

Há ainda um risco que vai além desta eleição. Se grupos de bispos podem publicar orientações de voto às vésperas do pleito, amanhã outros farão o mesmo com conclusões opostas, e a Igreja ficaria “refém de grupos”.

O voto é do leigo, e a régua é a doutrina inteira

O Catecismo é direto: não compete aos pastores intervir diretamente na construção política, tarefa que pertence à vocação dos fiéis leigos (CIC §2442). A Gaudium et Spes (n. 76) e a Christifideles Laici (n. 42) dizem o mesmo. Nas palavras do bispo, “o voto é ato de responsabilidade pessoal, não de obediência eclesiástica”.

Por isso ele propõe um exercício: perguntar a todos os candidatos o que pensam sobre a vida nascente, a família, a liberdade educativa, a propriedade, o papel do Estado, a superação da pobreza, a probidade e o compromisso com a verdade. Depois, comparar as respostas com a Doutrina Social inteira, sem recortes.

“Nenhum programa político realizará o Reino de Deus, e nenhum partido é a Igreja.”

A pergunta que fica

O ChurchPOP não está escolhendo qual grupo de bispos deve vencer. A nota de Dom Antonio merece ser lida em seus próprios termos, sem virar bandeira partidária.

Mas ela deixa uma pergunta incômoda: estamos dispostos a submeter todas as nossas preferências políticas à Doutrina Social da Igreja, inclusive aquelas com as quais já concordamos?

“O púlpito não é palanque. O altar não é comitê.”

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