O martírio não ficou restrito aos santos dos primeiros séculos. Ao longo da história, inúmeros cristãos deram a vida por Cristo, lembrando-nos de que o amor a Jesus e à sua Igreja é possível mesmo nas circunstâncias mais adversas.
Conheça cinco impressionantes exemplos de martírio em diferentes épocas da história do cristianismo.
Santa Felicidade e seus sete filhos mártires
A história de Santa Felicidade é narrada nas Atas dos Mártires. Durante o reinado do imperador Marco Aurélio, por volta do ano 165, essa nobre viúva cristã de Roma e seus sete filhos foram presos por professarem a fé cristã.
Todos receberam a mesma exigência: renunciar a Cristo ou morrer. Nenhum deles cedeu. Segundo a tradição, o filho mais velho respondeu ao juiz:
"Acabe logo com esse discurso; saiba que quero permanecer fiel."
Não há certeza sobre a forma como cada um morreu, mas a tradição relata que:
- Januário, o mais velho, foi açoitado;
- Félix e Filipe morreram espancados com porretes;
- Silvano foi lançado de cabeça em um precipício;
- Alexandre, Vital e Marcial, os três mais novos, foram decapitados.
Quatro meses depois, a própria mãe também recebeu a coroa do martírio.
A Igreja celebra sua memória em 23 de novembro. Entre os sete filhos, as relíquias de Santo Alexandre foram trasladadas durante a Alta Idade Média para a cidade de Wildeshausen, na atual região de Oldemburgo, Alemanha.
As 16 Carmelitas de Compiègne
Durante a Revolução Francesa, dezesseis mulheres do mosteiro carmelita de Compiègne — quatorze religiosas e duas colaboradoras leigas — recusaram-se a obedecer às leis anticlericais impostas pelo governo revolucionário.
Por permanecerem fiéis à Igreja e à sua vocação religiosa, foram guilhotinadas em Paris no dia 17 de julho de 1794.
Seu testemunho inspirou romances, peças teatrais, dois filmes e a célebre ópera de Francis Poulenc, Diálogos das Carmelitas, baseada em uma obra de Georges Bernanos.
Em 18 de novembro de 2024, o Papa Francisco estendeu seu culto a toda a Igreja, determinando sua inscrição no catálogo oficial dos santos. Sua memória litúrgica é celebrada em 17 de julho.
As Carmelitas de Compiègne
- Teresa de Santo Agostinho (Madeleine-Claudine Ledoine), prioresa – 42 anos
- Madre São Luís (Marie-Anne Brideau) – 42 anos
- Henriqueta de Jesus (Marie-Françoise Gabrielle de Croissy) – 49 anos
- Maria de Jesus Crucificado (Marie-Anne Piedcourt) – 79 anos
- Carlota da Ressurreição (Anne-Marie-Madeleine Thouret) – 79 anos
- Eufrásia da Imaculada Conceição (Marie-Claude Cyprienne) – 58 anos
- Teresa do Imaculado Coração de Maria (Marie-Antoinette Hanisset) – 54 anos
- Júlia Luísa de Jesus (Rose-Chrétien de la Neuville) – 53 anos
- Teresa de Santo Inácio (Marie-Gabrielle Trézel) – 51 anos
- Maria Henriqueta da Providência (Anne Petras) – 34 anos
- Constança de Jesus (Marie-Geneviève Meunier), noviça – 29 anos
- Maria de Santa Marta (Marie Dufour), irmã conversa – 52 anos
- Maria do Espírito Santo (Angélique Roussel), irmã conversa – 52 anos
- Maria de São Francisco Xavier (Juliette Vérolot), irmã conversa – 30 anos
- Catherine Soiron, colaboradora leiga – 52 anos
- Thérèse Soiron, colaboradora leiga – 46 anos
Santo Agostinho Zhao Rong e seus 119 companheiros mártires
Este grupo reúne 120 mártires que deram a vida por Cristo na China entre 1648 e 1930.
Entre eles estavam:
- 87 católicos chineses;
- 33 missionários ocidentais:
- 13 franceses;
- 12 italianos;
- 6 espanhóis;
- 1 belga;
- 1 holandês.
Todos sofreram perseguição por anunciarem o Evangelho e permanecerem firmes na fé em diferentes períodos da história chinesa.
Entre eles destaca-se Santo Agostinho Zhao Rong, que inicialmente era soldado. Depois de conhecer o cristianismo, pediu o Batismo, tornou-se sacerdote e, por fim, foi preso e torturado até a morte em 1815.
São Tito Brandsma
Este sacerdote carmelita neerlandês foi preso em janeiro de 1942 por se opor à propaganda nazista nos jornais católicos dos Países Baixos.
Também colaborou na elaboração de uma carta pastoral em que os bispos holandeses condenavam o antissemitismo e afirmavam que o nazismo era incompatível com a fé católica.
Após sua prisão, foi enviado ao campo de concentração de Dachau, onde continuou testemunhando sua fé em meio às duríssimas condições de encarceramento.
No dia 26 de julho de 1942, morreu após receber uma injeção letal.
Pouco antes da execução, entregou seu rosário à enfermeira encarregada de aplicar a injeção. Anos depois, durante seu processo de canonização, ela declarou:
"Aquele homem era tocado pela graça de Deus, e espero encontrá-lo um dia no Céu."
São Óscar Romero
Óscar Romero nasceu em 1917 e morreu em 1980.
Como arcebispo de San Salvador, denunciou em suas homilias dominicais inúmeras violações dos direitos humanos e manifestou publicamente sua solidariedade às vítimas da violência política em seu país.
Foi assassinado enquanto celebrava a Santa Missa na capela do Hospital Divina Providência, em San Salvador.
Sua morte provocou protestos internacionais exigindo respeito aos direitos humanos em El Salvador.
Reconhecido pela Igreja como mártir por ódio à fé, foi beatificado em 2015 e canonizado pelo Papa Francisco em 14 de outubro de 2018.
São Óscar Romero tornou-se o primeiro de uma longa lista de novos mártires contemporâneos e também é venerado pela Comunhão Anglicana.
O testemunho desses mártires recorda que a fidelidade a Cristo pode exigir grandes sacrifícios, mas também revela que nenhuma perseguição é capaz de vencer uma fé verdadeiramente enraizada em Deus. Ao longo dos séculos, homens, mulheres, jovens, religiosos e leigos demonstraram, com a própria vida, que "não há maior amor do que dar a vida pelos amigos" (Jo 15,13).
