[Filme] Enola Holmes: O que é preciso para mudar o mundo?

Créditos: Netflix/Divulgação

A ideia da nossa Crítica Católica de Filme não é analisar de forma técnica e profissional, nem só falar de boas produções, mas também comentar sobre as que não têm muito a acrescentar (ou que podem até prejudicar) a nossa fé. Não queremos oferecer respostas prontas, e sim reflexões que te ajudem a buscar a santidade até na hora da diversão! Vamos nessa?

Quando a irmã adolescente de Sherlock Holmes (Henry Cavill), Enola (Millie Bobby Brown), descobre que sua mãe Eudoria (Helena Bonham Carter) está desaparecida, ela foge para Londres para procurá-la, e se torna uma super detetive ao superar seu famoso irmão, enquanto tenta escapar da guarda do outro irmão, Mycroft (Sam Claflin) e desvendar uma perigosa conspiração em torno do misterioso jovem lorde Tewkesbury (Louis Partridge).

Não é difícil entender o motivo da nova produção da Netflix ter virado a queridinha do momento; como grande parte dos filmes atualmente (infelizmente) ele vem carregado de ideologias e uma visão política – distorcida, diga-se de passagem- da realidade. O feminismo, em especial, é o grande foco da história e norteia a vida e os pensamentos dos personagens, seja para o bem ou para o mal. Basicamente quem se alinha a tal pensamento é tido como desejoso pela mudança social e os que o rejeitam, conservadores retrógrados.

O que nos leva então ao papel da mãe de Enola, que é apresentada com uma mulher feminista e (só) aparentemente não muito plena de suas faculdades mentais. Deixando de lado a opção de colocar a filha em um colégio, escolhe ela mesma educá-la, de uma forma bem inconvencional, quebrando “paradigmas” sobre quem Enola deveria ser na sociedade. Seu sumiço (e a razão dele) são muito estranhos e carregam todo um mistério que conduz a história… mais uma vez, ligados ao que foi dito acima.

Uma coisa interessante que com certeza podemos tirar do filme é a trajetória de Enola; ao fugir de casa para tentar encontrar sua mãe, na verdade ela começa a trilhar um caminho para encontrar a si mesma, e isso é muito legal. O autoconhecimento, como diz Santa Teresa D’Ávila, “é tão importante que, por mais próximo que você esteja do céu, gostaria que não descuidasse do cultivo de sua percepção de si mesmo”. E segundo a santa, só por meio da oração podemos descobrir quem realmente somos. “Ele me mostra não apenas meus pecados e erros, mas o que Ele está fazendo em mim. Preciso ter os olhos mais atentos na oração. O objeto do autoconhecimento é servir a Deus. Deus me revela a mim mesma e se revela a mim. Deus quer obras!”

O filme também traz um ponto bem interessante que é a amizade de Enola com Tewksbury. Apesar de toda a insistência dela em querer permanecer sozinha e muitas vezes até inverter os papéis ao perceber que ele está em perigo (ela acha que deve salvá-lo, e não o contrário), a natureza faz aí o seu papel contra qualquer pensamento de que homem e mulher são independentes entre si -apesar da história do filme. Deus os criou para se completarem e serem uma ajuda mútua; portanto é comum e até natural que nas amizades, uma das partes ou as duas acabem se apaixonando; apesar dos pensamentos que tentam relativizar a família e colocar a mulher num posto de não-necessidade do homem, é bonito ver a complementariedade que está lá e sempre estará. Mais uma vez, faz parte de quem somos.

O que nos leva ao último aspecto: que é o desejo pela diferença. Em determinada cena, Sherlock, falando sobre sua mãe, diz “talvez ela queira mudar o mundo”, ao que Enola responde: “talvez o mundo precise mudar”. E o que isso quer dizer? A resposta do escritor Chesterton pode ser uma das melhores: “Não queremos uma Igreja que mude com o mundo. Queremos uma Igreja que mude o mundo”.

Os cristãos são chamados a ser protagonistas nisto! Deus poderia simplesmente, pela sua onipotência, fazer com que o Evangelho chegasse a toda criatura; mas Ele quis precisar de nós para anunciarmos e sermos testemunhas, especialmente hoje em um mundo não apenas descrente, mas que rejeita a ideia de um Deus. Se tivéssemos a consciência de outra Teresa, a de Lisieux, “eu sou aquilo que Deus pensa de mim”, não seríamos tão facilmente arrastados pelas correntes mundanas e ideologias contrárias. Seríamos fortes para levantar a bandeira de Cristo e bradar como as grandes santas: Ele já venceu o mundo.

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Victoria Arruda
Victoria Arruda é jornalista, ama filmes, livros, música, teologia, política e... pizza. Escreve sobre coisas aleatórias, pra combinar com suas preferências pessoais.