No último dia 20 de abril, em Luanda, um homem se levantou para falar diante do Papa.

Esse homem era Manuel de Almeida, escolhido para representar os catequistas de Angola no encontro com Leão XIV.

Há 35 anos, ele percorre longas distâncias a pé para evangelizar comunidades onde os sacerdotes não chegam.

Manuel representa centenas de catequistas da Diocese de Uíge que vivem a mesma missão: animar as comunidades, fortalecer a fé dos fiéis e manter viva a ligação do povo com os sacerdotes e o bispo. Onde nenhuma estrutura institucional alcança, o catequista é a Igreja presente.

Ao longo dessas três décadas, Manuel enfrentou o que poucos suportariam. Longas caminhadas em terrenos hostis, ausência de meios, desafios familiares que testaram sua perseverança — e, em alguns momentos, perseguições por causa do Evangelho que anunciava.

Ainda assim, nunca parou.

Não porque fosse fácil. Mas porque entendeu, cedo, que o catequista não é um voluntário de fim de semana. É, nas suas próprias palavras, "um evangelizador a tempo inteiro" — responsável por estar presente onde e quando a comunidade precisa, independentemente do custo pessoal.

A gratidão que Manuel expressou naquele encontro diz muito sobre quem ele é: agradeceu à Igreja, aos seus pastores e à oportunidade de, em nome de tantos outros, partilhar uma vida inteira dedicada ao serviço do Evangelho. Não havia amargura nas palavras. Havia a serenidade de quem escolheu bem — e sabe disso.

Há uma expressão que a tradição da Igreja em Angola forjou para descrever esses homens e mulheres. Manuel de Almeida a usou diante do Papa sem hesitar:

"Sou definitivamente um comando da evangelização."

A palavra não é metáfora vazia. Ela carrega a história de uma Igreja que aprendeu a sobreviver e crescer em décadas de guerra civil, isolamento e escassez — onde os catequistas foram, muitas vezes, a única presença eclesial que restou. É o que o Catecismo descreve quando fala da vocação dos leigos: participar da missão de Cristo no mundo não como auxiliares eventuais, mas como protagonistas (CIC §897).

Manuel apontou também os desafios que persistem: falta de agentes pastorais, dificuldade de acesso às comunidades, carências materiais, crescimento da superstição e proliferação de seitas religiosas.

O Papa escutou tudo. E então trouxe sua resposta:

"Por fim, a vossa fidelidade a Angola, como a de todos os agentes pastorais no mundo inteiro, encontra-se hoje particularmente vinculada ao anúncio de paz. Noutros tempos, fostes corajosos em denunciar o flagelo da guerra, em suportar as populações flageladas, permanecendo a seu lado, em construir e reconstruir, em apontar caminhos e soluções para pôr fim ao conflito armado. O vosso contributo é comumente reconhecido e apreciado. Mas este trabalho não acabou, pois uma memória reconciliada, educando todos para concórdia e no meio de vós o testemunho sereno daqueles irmãos e irmãs que, depois de passar tormentos dolorosos, tudo perdoaram."

E foi direto ao que a Igreja não pode abandonar:

"Não desistam de denunciar injustiças, apresentando propostas segundo a caridade cristã."

Anunciar a paz e denunciar injustiças ao mesmo tempo não é contradição — é o Evangelho inteiro. Jesus chamou seus discípulos de artífices de paz (cf. Mt 5,9) e derrubou as mesas dos vendilhões no Templo (cf. Jo 2,15).

O Catecismo é direto: "A paz não pode ser obtida na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas." (CIC §2304)

Rezemos pela Igreja de Angola e pelos catequistas anônimos que, hoje, estão caminhando em algum lugar que o mundo não vê.

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