Salesiano italiano que conviveu com Dom Bosco dedicou seus últimos vinte anos em Campo Grande (MS) às crianças pobres e aos adultos analfabetos. Mais de 85 anos após sua morte, a Igreja começa a investigar sua fama de santidade.

Ele poderia ter trabalhado em um colégio salesiano moderno. Preferiu dedicar-se às crianças mais pobres e aos adultos que não sabiam ler.

Essa escolha marcou os últimos vinte anos do padre João Crippa em Campo Grande (MS), cidade que então pertencia a Mato Grosso. Agora, a Igreja começou a investigar formalmente sua vida: em 20 de outubro de 2026, a Arquidiocese de Campo Grande (MS) abriu o inquérito diocesano de sua causa de beatificação, e ele passa a ser chamado de Servo de Deus.

Um discípulo de Dom Bosco

Giovanni Crippa nasceu em 1861, em Asso, no norte da Itália. Em 1885, ingressou na formação salesiana em Turim, onde, segundo as biografias da congregação, conviveu com São João Bosco.

Em 1941, poucos meses após sua morte, o Bollettino Salesiano dedicou-lhe um necrológio. O texto, consultado pelo ChurchPOP no Arquivo Salesiano Central, afirma que Crippa se preparou para a vida missionária "sob a guia de Dom Bosco", tornando-se "um verdadeiro apóstolo dos oratórios festivos e das missões".

Depois de passar pelo Uruguai, onde era noviço em 1889, foi ordenado sacerdote em 1894 e trabalhou em Araras e Lorena, em São Paulo. Segundo a cronologia salesiana, a partir de 1912 atuou no antigo Mato Grosso: em Cuiabá, junto ao povo Bororo e, em 1919, em Aquidauana e Miranda. As biografias o descrevem percorrendo povoados a cavalo para atender famílias, doentes e moribundos.

Por que ele preferiu o oratório?

Em 1925, Crippa comprou os primeiros terrenos do Oratório São José, a Capelinha. Crianças eram recebidas de dia; adultos que não sabiam ler, ao anoitecer; e, aos domingos, havia Missa, confissão e catequese.

O necrológio de 1941 revela o sentido dessa escolha. Nos últimos vinte anos de vida, Crippa preferiu ao "moderníssimo Colégio" salesiano "as privações, os sacrifícios, as fadigas do seu apostolado predileto entre as crianças mais pobres do Oratório festivo e os adultos analfabetos".

Era o carisma de Dom Bosco colocado em prática no coração do Brasil.

Educação, doentes e presos

Crippa também participou da viabilização do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, ao lado de mulheres que se mobilizaram pela obra, e em 1926 recebeu as quatro primeiras Filhas de Maria Auxiliadora que chegaram à cidade. Segundo a Arquidiocese, ele ainda mobilizou recursos e benfeitores para o Colégio Salesiano Dom Bosco.

Seu cuidado alcançava os doentes e os presos. Segundo o vice-postulador Fábio do Vale, o jornal Correio da Manhã de 7 de setembro de 1919 registrou seu trabalho em uma penitenciária. É o Evangelho em ação: "Estava enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim" (Mt 25,36).

Uma memória que não se apagou

Crippa morreu em 1º de agosto de 1941, em Três Lagoas, aos 79 anos, sem ver concluída a Igreja São José, cuja construção começou em 1939.

Em 1951, a pedido da comunidade, seus restos mortais foram trasladados para essa igreja, e uma rua de Campo Grande (MS) recebeu seu nome. Hoje, fiéis deixam junto ao túmulo cartas, agradecimentos e ex-votos, com relatos de graças que associam à sua intercessão. A Igreja, porém, não reconheceu nenhum milagre atribuído a ele.

Como a causa começou

O impulso público veio em 8 de março de 2024, quando o então reitor-mor dos salesianos, Ángel Fernández Artime, visitou o túmulo e conversou com o pároco, padre Paulo Roberto de Oliveira, sobre abrir a causa.

Segundo a Arquidiocese, foram cerca de três anos de preparação, com uma comissão constituída pelo arcebispo, dom Dimas Lara Barbosa. Em outubro de 2026, veio o anúncio do nihil obstat da Santa Sé, que autoriza o processo sem antecipar juízo sobre a santidade. Crippa é o primeiro Servo de Deus da arquidiocese.

A postulação está a cargo de Paolo Vilotta. Não há prazo para a conclusão dos trabalhos.

O que significa ser Servo de Deus?

O título não significa que ele já foi declarado santo, nem que suas virtudes ou algum milagre foram reconhecidos. Na fase diocesana, documentos e depoimentos serão reunidos e enviados depois ao Dicastério para as Causas dos Santos, em Roma.

Se o Papa reconhecer suas virtudes heroicas, Crippa será declarado Venerável. Para a beatificação, será necessário, em regra, um milagre atribuído à sua intercessão; para a canonização, normalmente, outro. Ao canonizar, ensina o Catecismo, a Igreja reconhece "o poder do Espírito de santidade que está nela" e propõe os santos como modelos e intercessores (CIC, § 828).

Como colaborar

A postulação pede que famílias com documentos, fotos ou lembranças do padre Crippa procurem a Paróquia São José, na Rua Pedro Celestino, 1446, Centro de Campo Grande (MS). E todos podem rezar para que, se for da vontade de Deus, sua santidade seja reconhecida.

Enquanto isso, sua história deixa uma pergunta: quando podemos escolher entre o lugar mais confortável e o lugar onde estão os que mais precisam, qual escolhemos?

Compartilhe esta postagem